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“Nosso prédio vale mais que dois dólares a ação”

category internacional | cultura | resenha author Monday June 04, 2012 05:23author by Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre a Globalização - NIEG Report this post to the editors

O Núcleo Interdisciplinar de Estudos da Globalização Transnacional e da Cultura do Capitalismo (NIEG) comenta o filme "Wall Street 2: O Dinheiro Nunca Dorme" (Oliver Stone, 2010).
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A década de 1980 marca o avanço das políticas neoliberais em dois dos principais países do mundo, o Reino Unido de Margareth Thatcher e os Estados Unidos de Ronald Reagan. É também neste período que se vê a mudança no perfil das pessoas que trabalham nas bolsas de valores.

De profissionais oriundos de “seletos” grupos sociais, escolhidos por mentores experientes no assunto, os agentes financeiros passaram a utilizar os formandos dos cursos de Economia e áreas afins, com forte influência da Escola de Chicago.

No final da década, a falta de conhecimento sobre normas e regras do Estado perante o mercado financeiro gerou uma série de crimes e prisões, como mostra o filme Wall Street (Oliver Stone, 1987). Mas este é assunto para outra coluna. Para esta semana, o NIEG trata da continuação deste audiovisual, que reflete melhor a “farsa com o nome de crise” que o mundo vivencia nos últimos anos.

Wall Street 2: O Dinheiro Nunca Dorme (Oliver Stone, 2010) é ambientado num mundo que passou por sucessivas “crises” financeiras, com efeitos nos principais centros financeiros mundiais. As mais comentadas são as recentes explosões da bolha da internet, em 2001, e, principalmente, a de 2008, que nos “afeta” até hoje, causada pela queda da liquidez do sistema bancário estadunidense.

Em 2001, após cumprir pena por fraudes financeiras, Gordon Gekko (Michael Douglas) deixa a prisão, depois de oito anos trancado por crimes financeiros. Impossibilitado de operar no mercado, ele dedica seu tempo a realizar palestras e a escrever um livro, onde critica o comportamento de risco dos mercados.

Um dia, após uma de suas palestras em uma universidade, Gekko é abordado por Jake Moore (Shia LaBeouf), um jovem com carreira promissora no centro financeiro de Manhattan e cuja vontade de trabalho está centrada no desenvolvimento de fontes renováveis de energia. Uma das suas maiores apostas é uma pesquisa que está sendo desenvolvida na Califórnia e promete usar a força do mar para criar energia.

Jake vive com Winnie Gekko (Carey Mulligan), uma jornalista que alimenta um site independente e que, por um acaso, é filha do Sr. Gekko. Winnie não esconde o desprezo que sente por seu pai e o culpa de várias coisas que deram erradas em sua vida, mas Jake fará de tudo para uni-los e assim se aproximar de um dos seus ídolos.

Jake procura Gekko para pedir conselhos sobre como agir com Bretton James, um grande investidor que fez com que seu mentor, Lewis Zabel, tivesse que vender sua tradicional empresa por um valor insignificante, algo em torno de três dólares cada ação da empresa.

Logo no início do filme, vê-se Jake ganhando um bônus da ordem do milhão de dólares enquanto a tradicional empresa vai falindo no mesmo período. Zabel, experiente no setor, chega a afirmar que o “prédio vale mais que dois dólares a ação”, imagina todo o resto. Como não há representação real de valor nas ações trafegadas, a venda das ações de um conglomerado empresarial não leva em conta o valor real de coisas com existência física. O mundo simbólico é que domina o mercado financeiro. Dinheiro físico? As ações respondem.

É com a carga simbólica da comunicação que Jake cria um boato para acabar com um dos negócios de Bretton James. Ele inventa e espalha a notícia que uma das empresas que o grupo do adversário tem ações, uma petrolífera na África, será apropriada pelo ditador do país. Em poucos instantes, as ações caem e todos vendem suas ações. O resultado deste trabalho foi a sua contratação pelo adversário, que se admirou pela capacidade de “enganar” o mercado.

O filme acaba por se centrar nas relações pessoais entre Jake, Gekko, a gravidez de Winnie e a “guerra por dentro” com Bretton James. Em meio a isso, há uma amostra das discussões sobre a ajuda estatal aos bancos nos Estados Unidos, que no final das negociações fechará na injeção de 700 bilhões de dólares saindo do cofre do Tesouro Americano, com medo de repetir 1929.

Wall Street 2 é mais um filme dentro da lista do NIEG que pode ser utilizado para explicar o elenco real do mercado financeiro. A força de trabalho que estrutura as bolsas do mundo todo é atravessada por profissionais de diversas áreas das ciências.

A escolha dos recém-formados pelo ramo do capital financeiro, caso de Jake Moore, é primeiramente exercida pelo mercado, que oferece grandes rendimentos sem muita responsabilidade. O condicionamento da atuação desses profissionais é determinada pela quantidade de bonificação que está em jogo, ou seja, justifica seu ganho pelo valor que aciona.

Em segundo lugar, está a importância da formação acadêmica, que depende das posições que as universidades tomam no momento de formularem seus currículos, muitas vezes perdendo o poder de decisão por participarem do baile dos bancos, esses que por sua vez influenciam no panorama acadêmico mundial.

Este longa-metragem mostra, 23 anos depois, que “o dinheiro nunca dorme” e está cada vez mais a dominar a sociedade mundial, já que, sem a regulação do Estado – ou com regulação estatal nas mãos de agentes financeiros – farsas atrás de farsas, bolhas atrás de bolhas, não param de surgir sob a alcunha mascarada de “crise econômica”.

Núcleo Interdisciplinar de Estudos da Globalização Transnacional e da Cultura do Capitalismo (NIEG)

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