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Sobre a Venezuela e ante a morte de Hugo Chávez: Seguir criando Poder Popular!!!

category venezuela / colombia | a esquerda | opinião / análise author Tuesday March 19, 2013 21:54author by FAU - Federación Anarquista Uruguaya Report this post to the editors

Hoje, o imaginário dos de baixo é mais rico, contém muitas experiências-primas e cruas, e a sua subjetividade é ao mesmo tempo mais complexa. Contém elementos de rebeldia e compreensão geral da injustiça que o rodeia. E assim, por vezes, ganha as ruas. Além disso, sempre resulta mais proveitoso que se esteja participando dos eventos sociais do que esteja em um estado de resignação e alheio ao seu entorno. Como estará o imaginário dos de baixo na Venezuela, quando muito se falou do Poder Popular, quando muito se falou sobre o imperialismo, quando certas formas de participação social têm sido eficazes? O que sabemos é que o quietismo e a resignação não produzem nenhum grau de resistência, a possibilidade está na ação política social real, por mais contraditória e confuso que seja.

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Sua repercussão na América Latina e no mundo

Uma forte comoção passeou pelo mundo, pois morre um governante e militante de características singulares. Bastante controvertido, polêmico e polemista, de afirmações políticas vigorosas, criativo, incansável no seu dizer e propor, de potente carisma. Trouxe para a cena social política o nome do socialismo quando já poucos ou quase ninguém, a nível de governos em uma estrutura capitalista, fazia menção a tal nome, muito menos depois da queda do chamado socialismo real. Com Marx e Deus na sua boca lançou um socialismo original do século XXI. Ainda se discute qual conteúdo possui tal conceito. Estava então, como segue estando, no trono da infâmia, o modelo neoliberal. Seu fazer político o marcou com um selo muito pessoal. Governante paternalista, personalista, autoritário, foram as definições mais frequentes que usou-se para sua atuação. Criou mística e esperança na maior parte do seu povo e também, em parte, de outros povos da América Latina. Gritou energicamente, com algumas contradições, o seu anti-imperialismo, sobre a Pátria Grande latino-americana, sobre Independência, sobre Poder Popular criado fundamentalmente a partir de cima. Teceu desde seu governo, com marca bastante própria, relações políticas com vários governos ao redor do mundo. Fez uma política de solidariedade com os países latino-americanos e até mesmo para além desta área: venda de petróleo em condições favoráveis, e outros tipos de ajuda, por exemplo, para recuperação de indústrias que levariam adiante os trabalhadores, como no nosso país. Assim como, da mesma forma, propôs e perseverou na construção de novos organismos na América Latina fundamentando de que, com isso resultaria em mais independência, que pudesse trazer melhorias significativas para o nível de vida do povo.
É um fato que está à vista, sua figura está dimensionada de modo que hoje move multidões em seu país e diferentes expressões e manifestações em nossa América Latina e diversos países do mundo. Só a prova de exemplo, vamos dizer que o Irã declara um dia de luto, Argentina, Equador e Brasil três dias de luto, e moradores da Rússia carregam flores para a porta da Embaixada da Venezuela. Há notas expressando tristeza e dor, desde o Vaticano até a China. Sua morte se torna um evento incomum.

Dor de povo, dor que dói

Nesse povo numeroso que sai às ruas na Venezuela há expressão dor, sensação de perda de algo querido. Ao mesmo tempo, no interior da dor acentuada, marca que há um caminho a frente a seguir, que ficou uma linha traçada. Assim o vivem, o sentem e o dizem. “Hoje, o nosso dever é continuar ainda mais fundo com o socialismo, com a luta do projeto que o comandante nos deu”, responde um entrevistado a um repórter ao passo. Outros dizem coisas semelhantes e luta e socialismo mencionados novamente e novamente. Qual subjetividade se produziu nesta experiência social nos de baixo? Difícil de responder rapidamente e menos ainda hoje. Se vive na dimensão da emoção, da angústia, do sentimento agredido. Também rebeldia. O que trouxeram estes ventos tão fluidos, tão contraditórios, com esperança, para amplos setores dos de baixo reais? Local onde houve um apoio mais amplo para Hugo Chávez. Que elementos ideológicos se produziram? Como esses elementos se expressarão no amanhã próximo?

É justamente ali, no povo, nos de baixo propriamente dito, onde reside na Venezuela e em todos os lugares, a esperança de início de processos para um amanhã melhor, justo e de solidário.

O anarquismo histórico ombro a ombro com o povo

A FAU é fortemente uma herdeira daquele anarquismo que os imigrantes trouxeram para estas terras. Daqueles semeadores que colocavam tudo para mudar esse sistema brutal, injusto até a demência. Diziam de modo direto nas publicações da época, que nada podia se esperar a partir desta burguesia cruel e exploradora, pois tínhamos que lutar por outra sociedade. O que eles diziam levavam-nos à prática. Lá se encontravam metidos até os ombros dentro do seio daquele povo ao que sentiam pertencer. Eles não tinham nenhuma dúvida de que era o seu lugar. A sensibilidade social daqueles militantes libertários que vinham de diferentes partes da Europa lhes permitiram tomar contato rápido com o sentimento, com todo o imaginário daqueles “nacionais”, que nunca tinham ouvido falar em sindicatos, muito menos em socialismo libertário ou anarquismo. Mas bem tinham como referentes caudilhos políticos e partidos criados descaradamente para manter privilégios. Na vida cotidiana, vivendo com os mesmos problemas de seu povo, sofrendo aquela superexploração, dando, de fato, um exemplo de companheirismo, oferecendo coisas como o desejo de tecer com colegas de trabalho a sensibilidade espremida, foram criando os primeiros sindicatos, explicando que poderia ser alcançado um mundo melhor, que se devia lutar para arrancar dignas condições de existência e da preparação de um amanhã próprio. Depois, nos sindicatos se ensinava a leitura e a escrita, havia palestras sobre vários temas, se formavam temas dramáticos, se levantavam panelas solidárias durante as greves. Ao fazê-lo, em seguida, nesse amassar dos sonhos, foi-se construindo um outro sujeito. Não veio só nem dos livros, veio da ação cotidiana, das práticas que se foram realizando, da participação que estavam levando os trabalhadores que não conheciam a palavra “sindicato”. É claro que aquela militância estava inserida profundamente e propunha uma orientação nas tarefas sociais cotidianas. Propostas que calçavam com aqueles desejos. Mas bem se sabe que desejo não se engravida. Aquele trabalho diário estava, na verdade, organizando representações, idéias, comportamentos, produzindo ao mesmo tempo determinadas mudanças no imaginário dos de baixo. Este foi o caso aqui e, pelo menos, na maioria dos países da América Latina.

Hoje, o imaginário dos de baixo é mais rico, contém muitas experiências-primas e cruas, e a sua subjetividade é ao mesmo tempo mais complexa. Contém elementos de rebeldia e compreensão geral da injustiça que o rodeia. E assim, por vezes, ganha as ruas. Além disso, sempre resulta mais proveitoso que se esteja participando dos eventos sociais do que esteja em um estado de resignação e alheio ao seu entorno. Como estará o imaginário dos de baixo na Venezuela, quando muito se falou do Poder Popular, quando muito se falou sobre o imperialismo, quando certas formas de participação social têm sido eficazes? O que sabemos é que o quietismo e a resignação não produzem nenhum grau de resistência, a possibilidade está na ação política social real, por mais contraditória e confuso que seja.

Imperialismo e poder popular

São conceitos, tanto do imperialismo como o do poder popular, que estiveram com freqüencia nas palestras de Hugo Chávez. Seguem ainda presentes no discurso neste momento nos lábios de estadistas e militantes populares. O conteúdo e sua implementação são já outra história.
Podemos dizer que são muitas as pessoas que queriam passar o horizonte linguístico do termo imperialismo. Sugerem, às vezes o dizem, que é algo que pertence ao passado do capitalismo. Sugere-se que, nesta era pós-moderna as relações sociais mudaram com o grau de tais problemas que já se dissolveram. Se hoje há algo que fica claro é que a existência de relações de dependência, tudo o que constitui uma política imperial, é um componente constitutivo do sistema capitalista.

Quem deu por morto ao imperialismo não serve para coveiro. O imperialismo vive e oprime como nunca. Enquanto isso, os Estados dos países mais industrializados têm aumentado seus papéis em vários campos. Não há contradição nisso de que muitos desses países se encontram no que designam como crise e que estão jogando para o desemprego milhões de trabalhadores.

É verdade, hoje, há outra forma de capitalismo de Estado, não deixou de se ocupar de algumas funções anteriores e se ocupou de outras que considera estratégicas para esta etapa. Uma etapa onde o feroz capital financeiro viaja o mundo deixando o rastro de miséria.

Capital financeiro internacional que diariamente se cruza com a esfera política e ideológica. Os banqueiros não têm dificuldade em pagar os bilhões de dólares que eles mesmos roubaram. As estruturas: econômicas, jurídico-políticas e ideológico-culturais revestem hoje uma articulação muito específica. Para isso deve-se acrescentar o uso muito importante da tecnologia da informação para o benefício dos poderosos. Tudo isto interessa aos efeitos de recolocar os temas do presente, os processos em curso, o estado atual da estrutura imperialista.
Não há dúvida de que devemos continuar falando sobre imperialismo. Mas não perdemos a perspectiva, programas táticos a parte, de que consequente anti-imperialismo deva ser anticapitalista.

O bloco imperial, apesar da sua situação interna, não deixou de operar em nenhum momento. Nem na América Latina ou em outras partes do mundo. Seguem tentando hoje subordinar seus projetos em todo o Sul. Há ataques e campanhas que vão desde sutis a grotescas, sobre cada país que tenta algum grau mínimo de independência política. Em termos de nossa América a penetração imperial está em várias pontas. No econômico, são bem conhecidos os tratados, tal a Alca na etapa anterior e, em resposta à resistência popular oferecida, aparecem como substitutos o TLC e TIFA. No militar, são as várias políticas do Comando Sul. Ideologicamente, instrumento de primeira ordem para estruturar toda a política, há produção de “teorias” gerais e parciais para justificar todas as suas ações. O pensamento único está composto por uma grande variedade de discursos que abrangem vários domínios.

Ao contrário do que a mídia diz, os EUA introduziram e continuam colocando bases na América Latina, com a Amazônia e o Brasil cercados, financiam a repressão e o tráfico de drogas no Plano Colômbia e, mais recentemente, em sua penetração no México; sempre latentes estão os “clássicos” golpes da CIA e suas políticas desestabilizadoras. Somemos as guerras, intervenções militares, massacres.

Descontamos a intervenção tradicional do FMI, Banco Mundial, a ex-Organização Mundial do Comércio e o BID. Os projetos globais e todos esses mecanismos de prisão e predação.

Sabemos que é impossível separar a estrutura imperialista e os interesses das transnacionais das suas matrizes. Assim estamos em um momento histórico onde as 500 maiores empresas do mundo controlam 80% da circulação da riqueza, bens e serviços. E dentro dos serviços nós colocamos a informática que é bem conhecido, na forma como é utilizada, o serviço singular e implacável que proporciona a toda a política de dominação, com a constante criação de novos mecanismos e símbolos.

A propósito da Venezuela, algo sobre a América Latina hoje

Frente a implantação desta nova fase do capitalismo e das suas brutais e sistemáticas práticas imperiais relacionadas com isso, não se pode dizer que os povos têm estado tranquilos. Apenas mencionaremos de passagem e, genericamente, a chamada “Primavera Árabe”, as revoltas populares, como na Grécia, Portugal, Espanha e mesmo até nos EUA.

Mas queremos enfatizar nossa área. Resumidamente lembraremos da resistência na nossa América Latina na última década, onde, sob diferentes condições sociais e econômicas, em curto espaço de tempo, o povo do Equador, Peru, Bolívia, Argentina, México e Venezuela, protagonizaram confrontos violentos, muitas vezes desesperados, para quebrar o circuito da miséria e da injustiça brutal que os aprisionava em um nível elevado. Filha da situação da política neoliberal feroz neste último período. O Caracazo foi quase um precursor destas revoltas populares.

Com diferentes graus de intensidade, o questionamento de tal situação foi se tornando escolha urgente de luta. Uma luta não orientada, geralmente, por aparelhos políticos tradicionais da esquerda, mas do tipo da ação direta popular. Governos caíram, outros tiveram que repensar a sua continuidade de projeto para apaziguar a raiva e tentar não mudar nada de substância. Assim, apesar da cumplicidade de governos na América Latina com a continuidade dos projetos imperiais, continuidade que assumiu várias formas e graus, o cenário político do continente ficou um pouco revolto. No entanto, pode-se observar que após a substituição “progressista”, realizada em vários países, em muitos deles, não houve alterações relevantes nos fundamentos da política interna ou da estrutura de dependência. É claro que não queremos dizer com isso que todas as coisas seguem iguais, seria de pouco rigor. Há um certo número de elementos que compõem uma conjuntura política distinta. Cabe registrar que existem tentativas de criar estruturas e instituições na América Latina que limitem essa dependência assim como há reformismo forte em países como Bolívia, Venezuela e Equador. Enquanto que, um conjunto de fatores internacionais trouxeram alguns efeitos positivos para a economia da maioria dos nossos países. Definitivamente são questões que merecem um tratamento mais profundo do que hoje deixamos aqui.

Poder Popular

Nestes anos, especialmente aqueles de baixo da alça da Venezuela, estavam-se desenvolvendo uma série de atividades populares. Isso foi tomando formas organizacionais: coletivos, conselhos comunais, comunas, etc. Isto, como um todo, foi chamado de Poder Popular. A burocracia partidária foi crescendo em interferência e cada vez mais substituindo os autênticos representantes destas formações populares. Havia, e ainda continuam havendo protestos de coletivos e comunas que reivindicam autonomia e que os ganhos obtidos tenham efeito. Nós temos a recente situação dramática das reivindicações indígenas para as suas terras e que resultaram no assassinato vil do militante Sabino Romero feito por contratados.

Aliás, sabemos que o movimento bolivariano não é algo homogêneo, e sua composição é fluida. Diferentes abordagens políticas e ideológicas não são escassas. Em um momento de descontentamento dos de baixo, daqueles que trabalham em organizações sociais em comunidades, que rejeitavam o controle crescente da burocracia partidária, Hugo Chávez em um ato popular faz a leitura de uma carta de Kropotkin a Lênin. Sua maior área de apoio estava sendo afetada pelo comportamento burocrático. Nesta oportunidade apela para enfatizar uma prática de Poder Popular diferente. Vejamos.

Hugo Chávez diz: “Parece-me vital tomar essa referência ao que aconteceu na União Soviética quando apenas começava a Revolução Russa.” Começa a ler a carta:
“Sem a participação das forças locais, sem uma organização desde a base dos trabalhadores e camponeses por eles mesmos, é impossível construir uma nova vida.
Parecia que os sovietes serviriam justamente para cumprir a função de criar uma organização desde baixo. Mas a Rússia tornou-se uma República Soviética, só de nome (comenta: 1920, isso começou mal, não?) A influência dirigente do “partido” sobre as pessoas (acrescenta: “partido entre aspas, partido falso”), que consiste de recém-chegados, porque os ideólogos comunistas, estão, principalmente, nas grandes cidades, já destruíram a influência e energia construtiva que os sovietes tinham; no momento atual, são os comitês do partido e não os sovietes que carregam a direção na Rússia e sua organização sofre os efeitos de toda organização burocrática. Para sair desta confusão a Rússia deve retomar todo o gênio criativo das forças locais, em cada comunidade, o que a meu ver, podem ser um fator na construção da nova vida, e quanto mais cedo a necessidade de retomar o caminho for compreendida, quanto melhor será. As pessoas então estarão dispostas e desejosas a aceitar novas formas sociais de vida, se a situação atual continuar, mesmo a palavra ‘socialismo’ será transformada em uma maldição.”

“Temos que olhar para isso”, diz ele em tom de forte crítica a sua militância.

O empoderamento do povo, o Poder Popular é sem dúvida, com uma prática consequente, um fator político de primeira ordem. Para encarar adequadamente política e teoricamente esse conceito, que rapidamente definimos como a capacidade de uma força político-social de realizar seu projeto, há questões de caráter estratégico e teórico que devemos considerar. Hoje faremos de forma breve e para uma situação específica que se está chamando.

Diferentes abordagens e orientações podem surgir a partir de tal conceito de Poder Popular. Por exemplo, existe toda uma conceituação em torno do conceito de vanguarda que pode fazer com que práticas opostas ao que se tenta, ponham-se em ação. O conceito de vanguarda que foi todo um paradigma para quase um século. Na verdade, este conceito nos indica o critério de que deve haver uma única direção: do partido para a classe e toda à população. Hoje seria de, pelo menos em alguns lugares, do partido para o movimento popular. Contém a crença de que a população, o sujeito histórico estabelecido, seja já classe ou movimento popular, deve permanecer subordinado ao Partido. De que a “massa” operária ou popular, em geral, sozinha é incapaz de criar instâncias de deliberação. Além disso, também a crença de que no seio da sociedade capitalista não pode ser gerada a partir de baixo, condições básicas para a sua dissolução. Muito não importa, então, para essa concepção, o grau de desenvolvimento da auto-organização, de auto-gestão, de instâncias contínuas de participação popular. Não se trata, no fundo, de criar um povo forte, senão um partido forte. Reducionismo político total, filho, por outro lado de toda uma concepção geral reducionista.

Uma ideologia para o Poder Popular

Se trata de apostar em um processo que produza uma ideologia de ruptura, articulada com a prática política nesse sentido.

E a ideologia não vem de fora, ocorre no coração das práticas, idéias e comportamentos que o povo vai realizando através dos seus vários enfrentamentos. A produção de uma nova tecnologia sócio-política e “discursos de saber” correspondentes à libertação não podem ocorrer sem deslocar aos que fazem a dominação. É tarefa política de desconstrução. São discursos que devem entrar em confronto e que devem regar todos os casos em que o povo protagonize lutas de resistência.

Uma estratégia de Poder Popular não é uma enteléquia, ou algo que vem com um feitiço certo. Não é um ato isolado. Requer a modificação de práticas, de ruptura, de descontinuidade, em áreas como o econômico, o ideológico, o político-jurídico, o cultural como um todo. É estar batendo e quebrando esta vasta rede de dominação. Todas essas idéias se concretizam em um processo com participação ativa popular. Um povo, que compreendemos como um amplo espectro dos oprimidos e explorados que, nesta fase, designamos como conjunto de Classes Oprimidas. Um povo que sofre, dentro das mudanças estruturais, uma fragmentação de importância que deve ser superada. Onde novas estruturas de dominação têm sido desenvolvidas e surgidas em outros lugares do que aquelas tradicionais. Necessário, indispensável, construir laços de solidariedade que vinculem, que façam com que a unidade das suas lutas constituam uma base de primeira ordem para que conformem uma força social capaz de dar confrontamentos efetivos e dar passos em qualidade. Nós não estamos falando de gradualismo, nem linearidade ou de tomar os inimigos um por um. Estamos falando de oporem-se sistematicamente, estrategicamente, um universo que inclui a nova realidade histórica, as mudanças que foram surgindo em processos complexos. A nova militância que esta situação impõe.

Nossa América Latina teve na última década, por exemplo, várias experiências de luta. Ela enriqueceu seu quintal ideológico.

Em certos momentos históricos se produzem com peso um conjunto integrado de idéias, representações, noções no interior do imaginário dos diferentes sujeitos sociais. É este conjunto articulado de caráter imaginário, e que toma a forma de “certezas” que é defendido pelos mesmos sujeitos sociais. Isto é o que pode transformar estes sujeitos em protagonistas de sua própria história ou em sujeitos passivos e/ou disciplinados pelas forças dominantes ou por estratégias equivocadas que o pedem quietude, silêncio, “disciplina”.

Assim, a ideologia tem a ver diretamente com a constituição histórica dos sujeitos sociais, e com a forma como estes se expressam na sociedade. É algo muito diferente da noção de que a ideologia é a falsificação da realidade, precisamente porque ela é um dos componentes fundamentais de qualquer realidade social.

A ideologia tem na sua constituição elementos de natureza não-científica e que contribuem para aumentar a ação, motivando-a com base em circunstâncias que não derivam estritamente delas. A ideologia está condicionada pelas condições históricas, mas não determinada por elas mecanicamente.

Nesta relação entre a ideologia e a produção de sujeitos históricos, relação que se não existisse, não haveria nem ideologia nem sujeito, é que vai moldando-se os momentos de vigência ideológicas. Bem como, os sujeitos/agentes históricos se expandem e chegam à hegemonia dos corpos sociais, a partir da vigência das ideologias.

Estes momentos podem ser expandidos chegando a se totalizarem; em outros momentos as ideologias se sobrepõem na mesma sociedade ou ficam vivendo em áreas isoladas. Frente ao fruto da fragmentação neoliberal, quebrar o isolamento de representações ideológicas com potencial emancipador é tarefa permanente de uma organização política com intenções de mudança.

Assim podemos concluir a importância da luta ideológica, presente principalmente em tempos históricos atuais no nosso continente. Onde a operação da ideologia neoliberal, com todos os meios operacionais informáticos funcionando; o que dá a curva à direita das esquerdas institucionais que vão cada vez mais inserindo-se no sistema.

Em suma, uma concepção e uma prática do Poder Popular tem a sua produção específica, tem o seu próprio universo. Ele tem a sua própria produção. Para jogar como uma força transformadora, condicionante de conjunturas, produzindo progressos desestruturantes há uma condição necessária: deve sempre manter sua independência. “A independência de classe” se dizia em outros momentos do desenvolvimento histórico, hoje diríamos, ajustando ao novo contexto: a independência das classes oprimidas, isto é, de todos os movimentos populares.

Mas queremos salientar que, ao apontar esta categoria, tenhamos especialmente em conta as características particulares de cada formação social, sua história, suas transformações, sem negligenciar o que tem de comum com outros países, principalmente na área e, obviamente, as condicionantes que globais estruturas de poder estabelecem.

É bem sabido, as malhas do poder dominante esmagam, manipulam, moldam. Inserem em seu seio partidos, ideologias, movimentos, histórias, os amassam e depois os devolvem como bons seguidores do antigo e reprodutores do atual. O mecanismo se repete uma e outra vez. E muitas são reiteradas como forças incomensuráveis girando nessa roda louca. Nestes dispositivos é que temos que atirar com propostas e ações de conteúdos diferentes. Com uma coerência que permita pisar firme.

No mais, notar que a circulação infinita das mesmas dinâmicas e lógicas não podem criar algo novo, apenas recriar o existente, com menor ou maior fantasia.

Para permitir que surjam outras relações sociais, os fatos parecem indicar a necessidade de usar outros materiais para a nova construção. Uma outra abordagem, outra perspectiva, outra lógica, outras práticas, outros mecanismos. Outro ponto de partida. Nada original, é a nova civilização que elaboraram os socialistas antigos. Esse processo deve descansar e implantar-se em uma feroz independência das classes oprimidas. De um povo construindo seu destino no ritmo que permitem as condições históricas. As armadilhas, as relações, as próprias alianças tácitas e explícitas devem ser feitas a partir dessa perspectiva de independência. Uma vez que não pode ser isolado, como deve se estar no meio do povo e nos eventos sociais complexos e variáveis, esse fator adquire uma importância de caráter estratégico de primeira ordem.

Diante de todas essas mudanças e perdas sociais, contra a cultura que proclama o fim das ideologias e da história, declarando o capitalismo e suas instituições como a única realidade possível, é que atualmente a luta ideológica ganha dimensões estratégicas para a produção de um novo sujeito histórico, capaz de enfrentar tais concepções dominantes com base na ação direta. A partir da ideologia, do poder das ideias, é que se pode mobilizar os corações e razões, coletivamente, articulando-os em uma expressão de resistência e progresso na medida que convoca diferentes sujeitos sociais e os transforma em agentes capazes de reescrever a história e conceber um mundo novo. Tudo isso articulado na expressão política subsequente.

Inseridos em nosso povo, vivendo seus problemas cotidianos, com esperança e ferramentas eficazes iremos construindo crescentes espaços de socialismo e liberdade.

Arriba los que luchan, sempre

Federação Anarquista Uruguaia (FAU)


6 de março de 2013

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