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Fasciocapitalismo e Antifascismo

category itália / suíça | anti-fascismo | opinião / análise author Saturday April 04, 2020 06:06author by Alternativa Libertaria/fdca Report this post to the editors

Tradução do italiano ao português da moção sobre fascismo e antifascismo aprovada no X Congresso (2019) da Alternativa Libertaria/fdca
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Pode ser que o fascismo, mesmo moderando alguns de seus aspectos demasiado irritantes e que ferem o sentimento humano, permaneça e se consolide como estrutura de coerção violenta, como uma espada de Damocles continuamente suspensa sobre a classe trabalhadora, de maneira que esta nunca possa estar completamente tranquila em algum refugio, até mais legal, e sempre possa temer que seu direito seja violado por uma violência repentina e arbitraria.
- Luigi Fabbri em “A Contrarrevolução Preventiva”

Esta espada de Damocles que Fabbri havia justamente individuado como a contrarrevolução preventiva, é um instrumento utilizado pela classe dominante para impedir o desenvolvimento do movimento de luta da classe trabalhadora, e que revelou-se em alguns momentos como muito mais útil à repressão policial e também à sedução social-democrata, muito mais cara para os patroes. Tanto que apesar da derrota completa, militar e politica, a burguesia italiana (e aquela do recém-nascido Império americano) ja em 1945 escolhia de não se desfazer completamente, mas pelo contrario de manter estes cães adestrados baixo seus braços, apontando para uma reutilização imediata desta carta nos tempos que se delineavam. E de fato bem sabemos como o fascismo e os fascistas tenham se reciclado abundantemente na Itália e de como o Estado italiano tenha continuado a servir-se em chave paramilitar. A este proposito é util lembrar a anistia desejada e atuada por Togliatti [secretario geral do partido comunista, NdT] em 1947 que entregou diversos aparatos do Estado [em especial as forças policiais, NdT] às velhas hierarquias fascistas.

E hoje, em 2019, ao declinar a força dos movimentos sociais eis que cada vez mais se mostram sob a luz do sol até chegar a revestir encargos institucionais. Encargos que com sua propaganda de ódio e com seu desprezo cientifico e mirado pela historia, tem consentido às ideias fascistas de voltar à circulação e a ser comunemente aceitas como portadoras de barreiras contra a degradação e a corrupção da sociedade atual. E a cada ataque fascista contra as faixas mais frágeis e expostas [do povo, NdT], imediatamente é feito Whataboutism, são citados os opostos extremos do fascismo e dos 'centros sociais', são indicados como garoteadas. A palavra fascismo – 'the F. word' – é proibida no relatório dos fatos.

Claro, em relação aos anos '20 não existe hoje um partido único fascista, mas mais organizações que se distinguem pelo seu grau de pertencimento às instituições e às reivindicações mais ou menos declarados do fascismo em si. Se começa com quem ostenta declaradamente orgulho pelas ideias do ventanário [refere-se às duas décadas 1920-1940 da ditadura de Mussolini, NdT], quem procura emular o fascismo social, antes sansepolcrino [nome do movimento liderado por Mussolini em 1919 que precedeu a fundação do movimento fascista, NdT] e depois republicano; quem enfim esconde as intrigas de qual é portador atrás de Ongs aparentemente benéficas que se ocupam de solidariedade, defesa da natureza e outros temas 'sociais'. Este modo de colocar-se possui como objetivo primário aquele de buscar aprovação dentro da sociedade civil, levada a considerar ontologicamente bom quem faz o bem; em segundo lugar serve aos fascistas para ocupar casamatas dentro de temas que geralmente são prerrogativas dos movimentos de esquerda. Neste sentido ha de se fazer atenção também às tentativas de infiltração, que desde sempre vem sendo tentados da direita para a esquerda.

A grande intervenção que o fascismo teve nos últimos anos na Itália serviu para consolidar uma 'capa' em torno do proletariado que visa impedir, cada vez mais, o trabalho de massificar as idéias e propostas da esquerda, aproveitando as crescentes frustrações em um contexto. de crise econômica e dispersão política, com uma suposta esquerda institucional incapaz de se opor, e que na verdade caminha quase nos mesmos trilhos em questões como migrantes, trabalho, movimentos sociais... para simplificar, a retórica do inimigo interno direcionada às seções mais fracas e mais expostas da sociedade, um experimento para o qual a melhor demonstração é certamente aquela conduzida pelo partido nazista na Alemanha na década de 1930 e da qual seus replicadores de hoje parecem bem cientes. Acima de tudo, ter sido capaz de criar um discurso que vise unir os setores mais vulneráveis da sociedade com o que seria a classe dominante, explorando o ódio de classe inata em todos aqueles que são explorados e oprimidos pelo capitalismo, mas desviando-o e distorcendo-o.

Mas isso está acontecendo hoje em um contexto que não pode ser separado da dinâmica geopolítica e econômica, onde o imperialismo renovado de Moscou e uma instável Casa Branca estão buscando a desintegração da União Européia para invadir o mercado com suas exportações.

Quanto sugerido por David Harvey (O Enigma do Capital, 2010) de que "As crises financeiras servem para racionalizar as irracionalidades do capitalismo; elas geralmente levam a reconfigurações, a novas esferas de investimento e novas formas de poder de classe" é ainda mais confirmado hoje, com o capitalismo em busca de um novo modelo de regulamentação e a vinda à tona de governos autoritários, em um contexto de a super exploração em que o abismo que separa as classes sociais não permite em nenhum caso qualquer migalha de bem-estar e, portanto, a única resposta possível para manter a estrutura economia é a repressão, que deve ser legitimada precisamente com a luta contra o inimigo interno. E testemunhamos na Itália tentativas cada vez mais frequentes de enquadrar militantes e ativistas das lutas sociais nas leis antiterroristas. A oposição e o protesto devem ser considerados, independentemente do que diga a democracia ou a constituição, um crime e um impedimento ao progresso do país.

E para tornar as coisas ainda mais agradáveis, não apenas o fascismo é carregado de infiltrações políticas no estado, nas forças de repressão e na mídia, mas demonstrou nos últimos anos toda a sua geminação com outra dos braços mais importantes de poder do Estado e principais fluxos de capital: o tráfico de drogas gerenciado por corporações e clãs mafiosos.

A difusão e a propagação de discursos de ódio contra o inimigo interno, muitas vezes usando notícias completamente falsas, hoje é profundamente preocupante, por um lado, abre caminho para uma retirada completa dos direitos que a classe trabalhadora conquistou nos últimos 100 anos; permite continuar com o genocídio no Mediterrâneo e a superexploração da força de trabalho clandestina, além de destruir o direito à existência duramente conquistado pelo povo LGBT, com ainda mais fúria do atual governo em relação aos direitos conquistados através da luta e com grande esforço das mulheres pelo reconhecimento como seres humanos e não meros sistemas reprodutivos a serviço dos homens construtores da civilização.

Os ataques subsequentes ao direito ao aborto, aos contraceptivos, aos consultórios, aos centros antiviolência [Consultórios são clinicas de saúde publica inteiramente direcionadas à mulheres e operadas por mulheres, e os centros antiviolência são estruturas exclusivas para abrigo e suporte legal e psicológico para mulheres que buscam sair de relacionamentos abusivos, ambas são conquistas e resultado das lutas feministas dos nos '60-'70, NdT] e às feministas se enquadram no quanto acima mencionado sobre a frustração de homens italianos, burgueses e proletários, que viram seus privilégios diminuídos e exprimem hoje essa necessidade urgente de afirmar sua masculinidade em uma verdadeira contraofensiva do patriarcado. Nunca é supérfluo afirmar que a batalha contra o capitalismo deve necessariamente ser interseccional à cada luta: não se pode ser antifascista sem ser antissexista; antirracista e não anticapitalista. Tudo deve estar interconectado e vinculado para enfrentar melhor uma capital que - ele sim! - é tentacular em cada mínimo aspecto da vida social de cada indivíduo.

Notas para um contra-ataque
“Tudo isso confirma o que já foi dito, que o fascismo é um ramo do grande tronco estatal-capitalista, ou uma filiação deste. Combater o fascismo, deixando seu gerador perene imperturbado, e até iludindo-se em encontrar neste um defensor contra aquele, significa continuar sempre tendo ombros mais pesados e opressivos, e um e outro. Matar o fascismo é possível, apenas se a ação de defesa contra ele, imposta pelas circunstâncias, não for desacompanhada pelo ataque às suas nascentes: o privilégio do poder e o privilégio da riqueza."

Portanto, para a classe trabalhadora que luta por sua libertação em direção a uma sociedade mais justa, mais livre e de bem-estar, não há outra maneira senão matar o fascismo. Matá-lo deliberadamente, sem repousar sobre expectativas ou esperar por força da conjuntura uma suposta evolução natural, mudanças socioeconômicas ou outras expressões semelhantes com as quais se tende a mascarar a própria relutância ao esforço de vontade. Para continuar, cabe a nós entender melhor o que queremos dizer com "matar o fascismo" passando novamente a palavra para Luigi Fabbri:

“Matar o fascismo não significa, obviamente, matar as pessoas do fascismo. A violência contra eles geralmente alimenta o primeiro em vez de matá-lo. Que os agredidos pelos fascistas, em certas circunstâncias de tempo e lugar, se defendem como sabem e como podem, é natural e inevitável. Não é ruim, mas mesmo que fosse ruim, aconteceria igualmente. Mas envolver-se na luta material contra o fascismo, como um organismo em si, não vendo outro inimigo além dele, seria um mau negócio; seria como cortar os galhos de uma planta venenosa, deixando seu tronco intacto, como desvencilhar-se de algum tentáculo de polvo sem bater na sua cabeça. Dessa maneira, será possível infligir alguma derrota parcial ao fascismo, será possível semear luto entre os fascistas; mas isso servirá apenas para agravar a luta desnecessariamente e pode servir para fortalecer o fascismo, ajudar a torná-lo um organismo cada vez mais robusto. A luta contra o fascismo só pode ser efetivamente atingida através das instituições políticas e econômicas das quais emana e das quais se alimenta. Além disso, os revolucionários que visam a derrubada do capitalismo e do Estado, se se deixarem desviar pelo fascismo, como um raio que se deixa atrair pelo para-raios, e dedicassem suas forças e se exaurissem no combater somente ao fascismo, serviriam as instituições que ao invés gostariam de demolir.”

O antifascismo que construímos parte de duas suposições fundamentais:

a) o enquadramento do fascismo dentro do capitalismo e do Estado, ou seja da luta de classes, podendo assim falar, especialmente hoje em que mais do que a contrarrevolução é uma questão de garantir os fluxos de capital, de fasciocapitalismo;

b) a dimensão da luta que passa através da estratégia de massas, de intervenção nos territórios e dentro da classe trabalhadora, combatendo a reprodução dos discursos de ódio, promovendo uma dimensão de sociedade diferente, baseada em outros valores como solidariedade, igualdade e liberdade. Abordando a questão não tanto do ponto de vista militarístico do confronto físico ou eleitoral, mas do contraste cultural à hegemonia, não de forma abstrata, mas através da construção de espaços ativos em bairros, escolas e locais de trabalho.

Portanto, construir o antifascismo para nós também significa intervir em espaços que já são antifascistas com práticas que podem levar a uma melhor organização e, portanto, têm mais oportunidades de dar respostas concretas e conclusivas ao avanço do inimigo.

Os e as militantes, os núcleos e Alternativa Libertaria como um todo, não devem hesitar na política de alianças quando se trata de antifascismo, mesmo que muitas vezes seja possível que haja declinações diferentes, conceituais e práticas. Para resistir e pavimentar o caminho hoje, não podemos ter principados aonde nos refugiar, mas devemos nos esforçar para ampliar nossos braços o máximo possível e influenciar com nossos conteúdos e práticas o que deve ser a luta antifascista.

Para retomar a ofensiva e transformar em vitória uma situação que parece já perdida de início, o agir antifascista difuso que propomos deve caracterizar-se por uma tática variada, mutável e capaz de se adaptar às realidades dos diferentes territórios e situações, imprevisível e capaz de evitar os pontos fortificados do inimigo e preencher suas brechas, seus 'vazios'. Uma tática que, no entanto, pressupõe uma unidade de propósito, uma canalização das forças de tudo o que é possível reunir sem desperdiçar energias e recursos em movimentações inúteis e desgastantes.

De fato, como destacado, o fasciocapitalismo não é composto apenas de organizações com o braço estendido, mas de discursos e ações governamentais destinadas a setores de luta que podem parecer distintos, mas que precisamente distintos não o são de maneira alguma. Lutando por direitos no trabalho, por um sistema de acolhimento e integração [aos imigrantes, NdT] solidário e digno, revelando os mecanismos traiçoeiros e perversos dos patroes, expondo notícias falsas e também tendo a humildade de enfrentar nossa classe sem agir com superioridade como muitas vezes pretendem organizações de esquerda portadoras de um pretenso papel iluminador para as massas ignorantes. Não somos estranhos ao proletariado, somos parte dele com todas as suas contradições e nossa tarefa é enfrentá-las para resolvê-las

É imprescindível defender o direito ao amor e à livre sexualidade de todas as pessoas, sem discriminar ou fingir que existe uma (falsa) ordem natural, assim como é essencial contribuir para a resistência dos movimentos feministas e lutar para reverter a correlação de forças conquistando mais direitos. Isso deve ser feito não apenas por meio de greves e manifestações, mas também por meio de momentos de formação destinados às mulheres para a aquisição de ferramentas de emancipação e aos homens para o reconhecimento de seus comportamentos machistas. Uma atividade a ser realizada coletivamente, para pessoas não militantes, assim como dentro de espaços militantes, onde frequentemente testemunhamos comportamentos violentos e patriarcais que não podem pertencer ao movimento revolucionário.

Se a contrarrevolução é a organização do ódio, a revolução social deve ser a organização do amor, da solidariedade, da criatividade. Uma organização essencial, especialmente para as novas gerações. Uma organização que visa sua defesa e que em nenhum caso é passiva e pacífica.

Moção aprovada no X Congresso da Alternativa Libertaria/fdca
Fano, 30 marzo 2019

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